Tuesday, August 08, 2006

Você conhece um candidato ótimo? Então não vote nele!

Outro dia, eu conversava com uma amiga sobre o tema deste blog. (Ela não sabe da minha identidade secreta, é claro, embora eu ache que desconfia: um dia, deixei a porta do guarda-roupa entreaberta e ela pode ter visto uma ponta da minha máscara.)

Ela é bem-intencionada, embora ainda ingênua e iludida. Concordando com quase tudo o que meus cúmplices e eu dizemos aqui, mesmo assim pretende votar em vários candidatos, de deputado a presidente. Ou presidenta, melhor dizendo, apesar de que a recente adesão de Clarissa Garotinho e da tropa de choque juvenil peemedebista à candidatura HH possa balançá-la. O que é triste, porque o voto nulo consciente não é conjuntural, é fruto da compreensão de que o sistema está podre, fede mais do que canapé de coquetel de conferência nacional depois de duas semanas debaixo do tapete.

Enfim, ela buscava líderes comunitários autênticos, gente de sangue bom, desvinculados da política tradicional, para votar nas eleições proporcionais. Estava lá, de microscópio na mão, olhando as listas partidárias, em busca deste ser surpreendente, merecedor de voto.

Deixei de lado o circunstancial - quem é que é desvinculado da política tradicional e ainda assim sai candidato? - e parti para o essencial:

- Vamos supor que você encontre esse candidato puro. Você vai elegê-lo para quê? Para que ele ganhe um status (ainda mais) diferente da base que deseja representar? Para que aprenda as manhas e mumunhas da ação parlamentar, o valor do conchavo, da espinha dobrada, do toma-lá-dá-cá? Para que se acostume às benesses da vida no poder e faça de sua reeleição em quatro anos a meta final de sua vida?

Minha amiga não se deu por vencida. Explicou que o objetivo era escolher um bom candidato que não fosse eleito, eliminando assim o risco de que ele fosse corrompido pelo exercício do poder. Feliz por entender que estávamos de acordo quanto a um ponto principal, isto é, que o exercício do poder corrompe, tentei decifrar essa postura underdog radical (lembrei-me das aulas de ciência política, do saudoso prof. Pimba): escolher quem vai perder.

- É para valorizar a candidatura - explicou ela. - Você sabia que os extratos de urna são valorizadíssimos? Minha liderança comunitária autêntica vai ficar feliz de ter tido um voto numa zona eleitoral de elite, longe de sua moradia. Mesmo não se elegendo.

Achei bizarro. O camarada tem um trabalho em movimento social, consegue fazer alguma coisa com as pessoas em volta dele, recebe o epíteto de liderança. Mas o que o valoriza é um voto numa área burguesa. Será que esse raciocínio não reforça a idéia de que a política eleitoral é a verdadeira política, que o voto é o único indicador que mostra quem tem o direito de fazer política? (E, ainda mais, que uma pequeno-burguesa vale mais que mil proletras?)

- Você está estimulando que se pense que a eleição é a política que importa, que você trabalha em movimento social, sindicato, seja o que for, como degrau para um dia sair a deputado. Que o que vale é o processo eleitoral e o resto é igual bosta de cabrito.

A citação escatolo-zoológica foi proposital, para valorizar também as lideranças advindas do meio rural.

- Não! - respondeu ela, escandalizada. - Não estou estimulando não. Ele já pensa isso desde a hora em que se candidata!

E ela vai corroborar isso... Se a liderança comunitária autêntica se ferrasse bonito, talvez se desencantasse com a política institucional e voltasse a alocar suas escassas energias em algo potencialmente mais produtivo. Mas assim não. O que minha amiga ainda não deglutiu é que cada voto dado legitima mais o sistema e cada voto recebido insere mais (quem o recebe) no sistema. Há quem queira manter o sistema - são os nossos adversários. Há quem queira reformar o sistema - iludidos, alguns; cooptados, outros. Mas se é para acabar com esse sistema, então não há meio termo.

Não sou fã de lideranças comunitárias - cada um dos dois termos me dá calafrios. Mas é necessário preservar toda a semente de transformação presente no mundo social. Se há um candidato bom, vamos cuidar pra não corrompê-lo com a vitória eleitoral, com a esperança de vitória eleitoral, com a mosca azul da busca do mandato. Eu sei que meu voto corrompe: não vou usá-lo contra quem eu respeito.

12 Comments:

Anonymous jil said...

apoiado!

quando você se candidatar, tem meu voto, viu?

Tuesday, August 08, 2006 8:22:00 AM  
Anonymous Ana Joana said...

Eu sou uma convertida ao voto nulo. Sabe por quê?

Antes, eu sabia que o resultado da eleição não ia mudar o mundo (ou o Brasil, ou meu estado, ou minha cidade, ou minha vila), ou que o meu votinho não significava muita coisa. Mesmo assim, cada vez que eu via um pedacinho de possibilidade para escolher alguém diferente, me dava aquela vontade de votar... Afinal, eu poderia canalizar meu voto como protesto, ou me assumir como eleitora undergod, mesmo. Conseguiria enviar um pequeno recado que, aliado a um monte de outros pequenos recados, poderiam significar um recadão pro sistema político: acho que vc é podre e é por isso que voto em quem acusa vc. Voto nele/nela pra mostrar o tanto que eu detesto vc, política tradicional.

Daí fui convencida da importância do voto nulo por uma simples recapitulação do Schumpeter. Muita gente tem razão em não gostar dele, e eu concordo que é uma porcaria o que ele diz, mas não dá pra deixar de admitir que ele consegue explicar bem o que temos por aí. Não importa o que significa o voto. Ele só serve pra uma coisa: legitimar o sistema. Posso até discordar do Schumpeter e dizer que o eleitor tem racionalidade na esfera política, sim, mas que a única finalidade do voto é a legitimação do sistema, é necessário concordar.
Então, se eu sou consciente de que meu voto só serve pra legitimar o sistema podre e conservador dos privilégios de poucos e do mundo cão de muitos, como nos ensinou há décadas o Schumpeter, votar em alguma opção oferecida pelo sistema (seja um/a candidato/a ou mesmo o voto branco) é um atentado contra meus próprios princípios, de confrontar o status quo.

Qualquer concessão a este arranjo, como o voto em alguma opções eleitoralmente oferecidas, é mais um motivo pra ele te engolir.

Tuesday, August 08, 2006 11:20:00 AM  
Blogger V! said...

Aaha! Muito bom! Mas é verdade, se um dia por acaso, quem sabe até antes de eu fizer 90 anos, ainda andando e enxergando, eu encontrar um candidato decente... vou salvá-lo! Não obrigarei a terrível degradação moral a que são "forçados" todos os políticos ao se tornarem os mesmos. Não votarei nele! Manterei meu voto nulo!

(Claro, isso é uma brincadeira... eu acho).

Tuesday, August 08, 2006 6:04:00 PM  
Anonymous Ana Pereira da Fonseca said...

Temos que ficar gratos ao PT, que nos desiludiu desse sistema iludido! hahah
Eu era petista de balancar bandeirinha na rua, mas agora sou grata a eles votando NULO! Já tava tudo podre antes tb, mas a gente só abre o olho qd queimam nossa última esperanca.

Wednesday, August 09, 2006 2:15:00 AM  
Anonymous Anonymous said...

Eu ainda prefiro estar viajando durante as eleições, que pelo menos eu aproveito meu tempo pra alguma coisa útil.

Como foi dito em outro post daqui, a imprensa vai apresentar um enquadramento bem diferente daquele esperado por quem vota nulo.

Voto nulo é o de quem "entra bêbado na cabine", ou de analfabeto, ou de pessoas desinformadas e preguiçosas, acho que isso que eles vão dizer.

Acho até mais provável que algum deputado mais inspirado sugira o voto facultativo, caso os índices de nulo, branco e abstenção sejam muito altos.

Acho que nenhum deputado teria cara de pau de dizer isso em público, mas com meus poderes de Mãe Diná prevejo também que um dia, sentado num buteco sujo tomando minha caracu com gema de ovo eu vou ouvir o cidadão do lado dizendo: esse povo não sabe votar, tinha que proibir esses pobres e analfabeto de votar, bom mesmo era na ditadura.

Thursday, August 10, 2006 5:43:00 AM  
Anonymous João Limoeiro said...

Ana Pereira, voto nulo não é a solução. Tá parecendo o Tim Maia falando que imunização racional não é religião.

Pode ser legal perceber que tudo está podre, mas votar nulo não é fazer a sua parte.

Sei lá o que é fazer a minha parte... mas desse jeito parece esse povinho que se encontra no forum social e chegam juntos àquela conclusão de pequeno-burguês: já sei! a solução da democracia é a internet! Já sei! A solução da democracia é o voto nulo!

Aí essas pessoas saem do forum e vão encher a cara, achando que fizeram a sua parte.

Não sei, é um dilema pra mim. Sentir-me feliz porque "entendi" o sitema, e satisfeito por ter votado 83 e não 13 ou 25.

Thursday, August 10, 2006 6:13:00 AM  
Anonymous susana macieira said...

joão limoeiro, votar nulo pode não ser fazer minha parte, mas significa não fazer minha desparte.

ou, sendo um pouquinho mais clara, votar em alguém é legitimar o sistema. votar nulo pode ser pouco, muito pouco, mas pelo menos garante que essa legitimidade eu não dou.

mas você tem razão: não é teclar 00, confirmar e correr para o abraço...

Thursday, August 10, 2006 8:30:00 AM  
Anonymous Pedro Abacateiro said...

Todo sistema precisa de válvula de escape, voto nulo é só mais uma delas, prevista por lei, como o próprio Miguw já disse.

No final é só mais uma eleição e mais candidatos cretinos eleitos. Ir contra o sistema mesmo ia ser entrar com uma marreta na cabine e detonar a urna.

Thursday, August 10, 2006 9:40:00 AM  
Anonymous Ana Joana said...

V!, não é brincadeira. É bem sério.

Vamos começar a campanha de entrar na cabine com marretas! Ou melhor, acabaram de ter uma idéia aqui do meu lado: quando for votar, carregue consigo um vidro com conta-gotas cheio de água. Daí, antes de apertar 00 e confirma, cumpra seu papel cidadão: entupa a urna com água.

Thursday, August 10, 2006 1:58:00 PM  
Anonymous Ana Pereira said...

joao limoeiro (nossa! nossos sobrenomes sao tao frutíferos!), a susana macieira já respondeu por mim. antes de sair, vou encher é a urna de água!
muito boa idéia, ana joana! a satisfacao deve ser ainda maior.

Saturday, August 12, 2006 3:20:00 AM  
Blogger Manezinho Birigüí said...

"Eu sei que meu voto corrompe: não vou usá-lo contra quem eu respeito."
Se um dia eu tiver um caminhão, essa vai ser a frase de para-choque!

Saturday, September 09, 2006 1:09:00 AM  
Anonymous Anonymous said...

Sim, provavelmente por isso e

Friday, November 20, 2009 9:16:00 AM  

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