Friday, August 11, 2006

Diário de um cientista político

Passei o dia de hoje travestido de cientista político, exibindo o terno mal ajambrado, a gravata colorida e o olhar cansado que são o uniforme da profissão. Passei o dia fazendo aquilo que eu e meus colegas fazemos sem parar nesse período pré-eleitoral: atendendo à mídia. Hoje, gravei entrevista para um canal de televisão, conversei com dois jornais por telefone e agendei uma rádio para amanhã. Faltam menos de dois meses para o primeiro turno; os jornalistas já rondam os cientistas políticos feito insetos na luz. Nas últimas semanas, falei para quatro ou cinco emissoras de televisão, uns 15 jornais, inclusive estrangeiros, e bem uma dúzia de revistas, entre elas Carta Capital, Capricho, Almanaque do Pato Donald e Anal Sex International.

Com a experiência, entendi que não adianta tentar arranjar qualquer idéia, qualquer ângulo novo, qualquer percepção crítica do mundo social. Quando um jornalista procura um cientista político, está atrás de cientificidades políticas... Então, cabe a nós cumprir nosso papel e dizer que:

"A democracia no Brasil está consolidada". "O processo eleitoral está amadurecido" (isto é, os candidatos são todos iguais). "Temos que reduzir o número de partidos com assento no Congresso". "A Justiça Eleitoral presta uma contribuição inestimável à democracia". "O elemento central da democracia é a competição pelo voto". "Os debates na TV são um momento precioso para o esclarecimento dos eleitores". "A tranqüilidade do mercado é a demonstração de que temos uma vida política sadia". "Crioulada é a tradução, para o português, da expressão black under class" (ver www.unbsempreconceitos.blogspot.com). "O fortalecimento dos partidos políticos é fundamental para a estabilidade da democracia". "A globalização tornou inevitável a abertura da economia". "A esquerda amadureceu". "O PT amadureceu". "Heloísa Helena está amadurecendo". "O jogo político superou o dilema do prisioneiro". "A tendência centrípeta da relação agente-principal compromete a accountability nos sistemas transversais de circunscrições trinominais".

Assim falam os cientistas políticos. Falamos devagar, para que o público entenda bem as verdades que queremos transmitir. De vez em quando, fazemos uma pausa e limpamos a baba que escorre pelo canto da boca com a ponta da gravata. Somos gente de bem, em busca de consultorias. Se alguém questiona a cientificidade do que dizemos, tiramos do bolso um artigo em inglês - em inglês! - com gráficos incompreensíveis e equações que ocupam páginas inteiras.

E bastam quatro ou cinco doses de uísque para que consigamos dormir, quase em paz, de noite.

1 Comments:

Anonymous Juma Marruá said...

..e põe uísque pra aliviar a consciência!
se uísque desse barriga, os cientistas políticos seriam todos redondos!

Saturday, August 12, 2006 3:23:00 AM  

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