Tuesday, October 17, 2006

Voto Nulo: remédio para Geraldofobia

Não há mais de 15 anos atrás eu vesti vermelho e gritei 13 em meio a uma multidão de petistas! Tinha eu 7 anos de idade (eu disse SETE anos) e minha mãe, militante, já me catequizara sem dó nem piedade. Assim, cresci esperando o dia em que pudesse votar no Lula. Aos 14, torcia pela eleição do PT como se estivesse vendo uma empolgante corrida de cavalos (na verdade estava vendo mesmo). Porém, já aos 16, percebi que o Lula que eu admirava (talvez porque me lembrasse o papai Noel) não era mais o mesmo.

Por ter me tornado um adolescente militante (eca!) concluí que ele havia "se vendido". A partir daí, convenci muitos "companheiros" de que o companheiro-mor já não era tão companheiro assim. Pouco depois optei pelo voto de protesto, primeiro passo para atualmente desembocar no voto nulo, opção cidadã.

Porém, hoje vejo muito ex-lulista como eu com a intenção de votar no Lula para barrar o Geraaaaaldo. Só gostaria de lembrar que votar no anti-Geraaaaldo é atestar para os políticos que "se vender" realmente funciona! Óbvio que votar já é um ato abominável, mas voltar a votar no Lula é o mesmo que dizer: "É isso aí companheiro, você está indo muito bem. Continue assim". Infelizmente, um dos dois vai ganhar e vai ficar se gabando que o povo quis isso. Porém, se alguém tem obrigação de não votar no Lula são os ex-lulistas, principalmente os com geraldofobia! E são estes que estão voltando atrás!

Sei que raramente escrevo tão sério nesse blog. Mas a onda de ex-lulista votando no Lula me obrigou a falar sério!

PS.: Além disso, gostaria de que alguém me apontasse as diferenças substantivas entre os dois que fossem capazes de justificar uma escolha.

7 Comments:

Anonymous noronha said...

arrasou, mané.
minha convicção no voto nulo só seria abalada se o birigüí fosse candidato!

Wednesday, October 18, 2006 11:10:00 AM  
Blogger Helena Máximo said...

Muito engraçado... responder um desafio com outro. Mas tudo bem. Eu não farei o mesmo.

Pensemos num mundo onde escolhemos realmente muito pouco. Um mundo que te diz, desde a hora em que saímos com aquela meleca toda de dentro da barriga de nossa mãezinha, o que pensar e, principalmente, como pensar. É verdade que eu "escolhi" ficar anos e anos dentro de ambientes educacionais diversos, mas, no fundo, era o caminho nitidamente esperado. O processo de escolha é quase ilusório, pois a maioria dos caminhos diferentes possíveis, provavelmente me "desocializariam" (do universo no qual eu construí minhas relações sociais). Bom... "vocês-sabem-qual" desse papo todo.

O fato é: as representações que eu faço do mundo dependem das relações que eu estabeleço com ele e que ele estabelece comigo. Como "ser" de origem específica, com um "sócio-histórico" particular, cada agente social tem uma PERSPECTIVA diferenciada e isso REALMENTE IMPORTA. Ok... vamos para o que interessa.

Alckmin nasceu em Pindamonhangaba, em 1952. Lula, em Caetés, em 1945. O pai de Alckmin era da UDN e a infância desse menino foi relativamente tranqüila, no convívio tradicional com os amigos Opus Dei e políticos que teriam algum papel em 64. Lula saiu da cidade natal aos sete para morar na periferia de Guarujá. Foi alfabetizado no Grupo Escolar Marcílio Dias. Alckmin se formou em medicina na Universidade de Taubaté, antes dos anos 70 e, naqueles anos ainda, fez especialização em anestesiologia. Com 12 anos, Lula foi empregado numa tinturaria, depois foi engraxate, auxiliar de escritório, torneiro mecânico no SENAI e formou-se metalúrgico em 1963. Alckmin elegeu-se vereador em Pindamonhangaba em 1972. Já no primeiro mandato, foi escolhido presidente da Câmara Municipal. É, em 1972. Lula foi para São Bernardo do Campo e sindicalizou-se. Sim, por volta dos anos 70. Bla, bla, bla...

Um elegeu-se governador de São Paulo. O outro, presidente do Brasil. Um apresenta um habitus extremamente coerente, nunca deu um passo à esquerda. O outro é conhecido pela caminha que deu para a direção contrária. Mas o mundo me faz pensar que a política é organizada em cima de uma linha fina que vai de um extremo a outro. Existe uma coerção complexa para que eu pense que os posicionamentos dos agentes, frente às relações de poder existentes numa sociedade altamente complexa, hierarquizada, marcada por "lugares de fala" específicos, pode ser a tal ponto organizável.

Acho que o mundo é conservador quando tenta me fazer pensar que as pessoas deliberam "livremente" sob seus posicionamentos sociais. Quando tenta me fazer crer que trajetórias sociais não significam nada e que as PERSPECTIVAS são racionalizáveis e individualmente determinadas.

Mas tudo isso não importa, porque a política não é feita de pessoas, certo?! Pouco importa o significado simbólico da eleição de um ou de outro. O fato é que eleger Lula ou Alckmin é também "dizer" algo para o país. E isso, para mim, é o mais importante. É o que estabelece a maior diferença entre as duas ações.

Obs.: desculpem-me, mas não vou revisar esse texto.

Thursday, October 19, 2006 7:53:00 PM  
Anonymous eu mesmo said...

Heleeeeeena!
Não entendi não. Você acha que devemos votar no Lula porque um dia ele foi "un hombre del pueblo"? E assim vamos dizer ao país que nós acreditamos em quem conseguiu subir na vida, em quem aproveita as oportunidades que o sistema fornece - e que, portanto, miseráveis e pobres, parem de reclamar, sigam o exemplo e abram seu caminho em nossa selva social?
Ou devemos votar no Lula porque um dia ele foi de esquerda e assim diremos ao país que podemos ficar tranqüilos, que as pessoas amadurecem, que se integram, que nossos filhos radicalóides de hoje estarão beijando a mão de Jader Barbalho amanhã?
Olha, entender a trajetória social significa perceber as peculiaridades da adaptação de Lula ao jogo político dominante. E não embarcar na idéia de que um pedigree de classe operária significa a garantia de alguma coisa.
Não significa: o exemplo está aí.
Isso é desespero, é auto-engano, é racionalização. É a busca de consolo para um coração petista que ainda sangra.
Mas talvez a terapia de choque seja mais jogo. Encarar a realidade de frente: o sonho acabou, como dizem nas padarias. Dói na hora, mas cura. É o método do famoso psicanalista, o dr. Freud Godoy.

Friday, October 20, 2006 3:54:00 AM  
Blogger Helena Máximo said...

Às vezes, acho que levo essa discussão a sério demais. Mesmo assim, vamos lá.

Eu quero que o mundo se convença - no sentido de querer que certas representações sociais se sobreponham a outras - de que as pessoas já não aguentam mais o capitalismo, que uma sociedade pensada como um amontoado de indivíduos não é uma sociedade, que o sistema educacional tradicional não prova nada e não dá qualidade a ninguém, que algumas distinções sociais estabelecidas são inaceitáveis, que a "democracia" significa mais que o voto, que a igualdade real deve prevalecer sobre a liberdade comercial. Consigo conferir mais poder a essas significações como? Votando no Geraldo? Votando nulo? O que eu posso dizer, além da minha insatisfação com o sistema, com meu voto nulo? Eu digo: não quero as coisas como estão aí. Acho que pode ser uma opção. Eu mesma a escolhi no primeiro turno. Mas não diz mais que isso. Na verdade, nem diz isso pros outros, mas diz isso pra mim mesmo. Ou seja, quero ficar tranqüilo comigo mesmo, não me importa o que vai acontecer com o mundo no qual eu vivo. Esse valor individualista é uma das representações sociais contra as quais eu tento lutar.

Na verdade, meu voto individualmente pouco importa (entenda, eu não acho que O MEU ÚNICO VOTO vai mudar o Brasil, mas preocupo-me com o resultado dessa eleição, ou seja, com a contagem de todos os votos - assumindo que não haverá fraude). Mas a eleição de Lula, em detrimento da eleição de Alckmin, significa, pelo menos, que não voltaremos a legitimar o poder de perspectivas construídas a partir das distinções sociais existentes através da concentração de capital (alienável).

Agora... a proposta era estabelecer a diferença entre os dois candidatos. E aí? Eles parecem assim tão iguais? É possível considerá-los como duas caixas praticamente vazias, que se posicionam naquela linhazinha esquerda-direita a cada momento de forma diferente? Acho que não.

Saturday, October 21, 2006 4:03:00 AM  
Blogger Darandina said...

Excelente, Helena! Bourdieu na veia...e eu assino embaixo! precisamos acreditar que as coisas têm ao menos efeitos simbólicos a essa altura do campeonato...

Monday, October 23, 2006 5:28:00 PM  
Anonymous le petit pierre said...

pobre bourdieu...
gente, bourdieu não falava em efeitos simbólicos. efeito simbólico é autoengano. bourdieu falava que o poder simbólico tem efeitos muito reais.
aplicado a votar no lula, isso quer dizer: dar votos a ele significa ampliar um capital simbólico que contribui para manter tudo como sempre esteve.
bourdieu apóia o voto nulo. é verdade, chico xavier me disse...

Monday, October 23, 2006 6:26:00 PM  
Blogger Manezinho Birigüí said...

Estou orgulhoso, pois a pobreza do meu post foi recompensada com a riqueza dos comentários. Espero não ficar por baixo ou diminuir a qualidade. Mais aí vão algumas críticas das críticas à crítica:

Primeiro: toda essa onda de reproduzir representações e significados ou modificá-los nem que seja só um pouquinho é muito complicada. Não que a Helena tenha sido obscura, ela escreveu claramente. O problema está na premissa de que a "escolha" A(ou L) tem "mais potencial" de levar determinada "doxa" para o lado B! Isso é muuuuuuito relativo. Votar no Lula "pode" mudar algumas das regras de reconhecimento político, assim como pode reforçá-las! É uma faca de dois legumes!

Segundo: precisamos muito pouco de Bourdieu para saber que discursos são infinitamente maleáveis e, quase sempre, as combinações nos surpreendem! Imaginem Chico Xavier incorporando Aristóteles e mostrando para ele o que foi feito de sua filosofia? O cara (ou os caras) iam ter uma ataque cardiáco (com prejuízos claros para apenas um deles). Não porque fizeram merda do que o Ari escreveu, mas é que o mundo é muito dinâmico! Não quero cair na fissura dos "efeitos perversos da ação", mas toda essa onda de "vou fazer isso para que aquilo aconteça, de modo a permitir que aquilo outro venha a tona" é meio exagerado. Lembra a uma velha história futebolística: "Um técnico da seleção brasileira diz para o Garrincha pegar a bola no meio do campo, driblar a defesa, chutar para o canto e rebater para o gol. Muito sabiamente, Garrincha afirma: Ótimo! Agora só falta combinar com o time adversário!"*

Terceiro: não tô dizendo que devemos cruzar os braços e deixar as estruturas nos coibirem por dentro. Mas o próprio Bourdieu reconhecia que a crítica mais importante aos seus trabalhos eram aquelas que se referiam à ênfaze excessiva nas permanências oriundas da aplicação de partes de seu modelo teórico. Bourdieu nos ajuda a entender sobre que focos a luta política deve se dar, mas não faz (e acho que não pretendia fazer) um "Manual Secreto para a Esquerda", dizendo quando apoiar quem e porquê.


* Com o exemplo futebolístico supracitado, não tive nenhum intuito de manter a representação social do futebol como metáfora política, e muito menos de perpetuar a dominação masculina citando uma arena marcada por polarizações promotoras de violência simbólica.

Monday, October 30, 2006 9:33:00 PM  

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