Thursday, September 21, 2006

Coerência

Pois é... O que realmente importa é a organização política (apesar de atualmente ser muito pouco democrática...), independente de como ela se apresente. Por isso todos os cientistas políticos correm desesperadamente para entrar na fila de votação durante as eleições. Afinal, é dever de cada um escolher o candidato “menos pior”... Olhamos tudo o que está por aí, no mercado político, e decidimos por aquele candidato que vai fazer a diferença! Aquele que é extremamente ético, que buscará a realização da vontade de todos, sem contar que possuirá o contrato mais milionário com o marketeiro da onda.

Faz me rir...

Bem, não agüento mais repetir isso, mas devo atentar que a perspectiva dos picaretas a escrever este blog é a de que os partidos políticos não são capazes de incorporar as necessidades presentes na comunidade. A especialização política distancia, e muito, as expectativas daqueles que concedem seu poder político daqueles outros, denominados políticos, que usurpam esta capacidade de exercer mudanças.

Não tem dessa... Os partidos políticos incorporam a diferenciação entre as pessoas! Uma vez que são estas mesmas pessoas que elaboram e arquitetam a nossa organização legal, não é de se espantar o descaso e a corrupção da nossa ordem legal e política. Apesar de a nossa Constituição enaltecer (apenas em alguns pedaços) a igualdade entre todos aqueles pertencentes à ordem política... (pois é)... nisso alguns se beneficiam e outros são excluídos (para não falar palavras mais fortes).

Se alguém aceitou os argumentos até o momento apresentados, o que realmente importa é manter a coerência. Se não é possível existir representação a partir dos partidos políticos não vai ser o meu voto que irá conduzir a uma modificação da organização política que acho equivocada.

Estes ilustres blogueiros não primam pela tentativa de garantir uma organização “democrático-representativa” ou pela “desconstrução” da ordem. É apenas coerência... até o Platão falava disso usando a boca de Sócrates (isso que nem sou tão fã assim do Platão). É preferível entrar em contradição com a multidão do que ignorar suas próprias reflexões. Serei a gralha no meio da revoada de corvos presentes no momento do voto. Apenas porque, na minha avaliação - a qual pode ser compartilhada por outras pessoas -, dois motivos me incentivam a manter meu voto anulado:

- Não acredito na forma de representação imposta dentro do território brasileiro. Partidos políticos possuem o monopólio da disputa política, servem apenas a eles mesmos e possuem mais força do que se costuma declarar.

- Ao mesmo tempo, o voto nulo existe para aqueles que estão/são descrentes com a atual organização política, a qual incorpora diversas noções preconceituosas e que costumam simplificar as relações sociais. É um protesto contra todas as formas de exclusão contidas em nosso belo Estado de Direito.

O mais interessante é perceber como pretensos defensores da democracia ignoram que o voto nulo É uma opção na disputa política e que deveria ser respeitada como tal. Mas, desde Robert Dahl, os “democráticos” não sabem como lidar com tanta liberdade... Democracia representativa não é democrática, é excludente. Sempre que alguém propõe mais democracia, sem passar pelos canais da representação tradicionalmente estabelecidos, imediatamente sua posição é ridicularizada e excluída do espaço público.

Eu não voto nulo para realizar uma revolução com o meu voto. Esqueçam o voto, por favor! Isso não serve para nada, não existe o que ser representado! Os partidos são incapazes de realizar isto. Eu voto nulo porque percebo essas contradições no sistema político e seria hipocrisia da minha parte compactuar com algo que não posso acreditar.

Se alguém concordar com os argumentos apresentados por estes defensores do voto nulo, bem vindo ao voto nulo. Se não for este o caso, espero ao menos que tenham lido os argumentos aqui presentes e refletido sobre eles.

6 Comments:

Blogger Mythus said...

Eu acredito no voto nulo como um voto de protesto. Mas ainda acredito que nesse mar de... (?) há de existir bons administradores. Eu conheço dois.

Mas acho que o problema maior é a perspectiva que se tem da coisa pública. Praticamente todo brasileiro a trata como res nullis. Não existe mudança no sistema político que corrija essa postura que transcende os cargos eletivos.

Mas ainda acho que o político não deveria receber por seu mandato, deveria trabalhar como todo brasileiro. No máximo ter alguma isenção tributária pelo exercício da função. Nem deveria se candidatar ou fazer propaganda. E escolheríamos alguém que vive de maneira idônea. Aposto que muitos até recusariam o cargo, caso fossem eleitos.

Friday, September 22, 2006 5:56:00 AM  
Anonymous ana banana said...

mythus, você está errado quando diz que conhece dois bons administradores. por dois motivos:
(a) política não se resume a administração. bom administrador administra bem. mas administra pra quê? política tem a ver com a fixação de rumos, de caminhos, que serão administrados depois;
(b) não é questão de encontrar a agulha no palheiro, o bom dentro da multidão de maus. o sistema político é mau. sem mudá-lo, nada muda. mesmo os "bons" fazem pouca diferença (e são fortemente empurrados para se tornarem maus).

o post de Anulados resume tudo o que li até agora nesse blog: votar nulo é o mínimo que podemos fazer.

Friday, September 22, 2006 7:56:00 AM  
Blogger Mythus said...

Ana,

Perdão pelo uso da palavra "administrador" referia-me a políticos. Ambos já exerceram mais do que apenas um cargo da Administração.

Eu prefiro fugir dos esteriotipos, ou será que devo acreditar em tudo que se diz que são os homens, as mulheres, os baianos, os políticos, os gays, os pobres, os ricos, etc? Aliás, esteriotipo só serve para contar piadas politicamente incorretas.

Por mais paradoxo que possa soar, acredito que o voto nulo é uma atitude válida, contudo é muito pouco eficiente se não houver uma proposta alternativa ao sistema vigente. De que adianta reclamar se não tem para onde mudar? Taí o sistema prisional; a microempresa e o direito do trabalhador e do consumidor; o processo de favelização e uma série de outros problemas sem soluções.

Por esse motivo, o post que eu achei mais interessante foi exatamente o que mencionava uma solução meio lotérica. Mas ainda assim, não resolveria o problema da representação política.

Contudo devo confessar minha ignorância nesse assunto. Sou apenas um eleitor e não um cientista político.

Friday, September 22, 2006 9:49:00 AM  
Blogger anulados said...

Mythus,

Esses seus comentários foram alguns dos mais interessantes que lia até o momento neste blog. Gostaria de levantar algumas questões a partir deles e possivelmente o fariam em "parcelas", pois estou meio enrolado no momento. ehehe

O objetivo deste blog realmente não é construir um novo sistema de governo, ou uma nova organização política ou o que seja. Buscamos estimular a discussão sobre a relevância da nossa organização política. O intuito estaria muito mais próximo de diagnosticar um problema e porpôr uma "solução" emergencial. De forma alguma o voto nulo vai resolver alguma coisa, mas já é relevante a percepção de que as coisas não vão bem. E como eu disse, não acho que seja um problema de candidato, mas do sistema.

Friday, September 22, 2006 1:40:00 PM  
Blogger anulados said...

Mythus, de novo... eheheeh,

Sobre a remuneração dos representantes. Isso é algo bem interesante de se rever. Porém, ao meu ver, algumas coisas devem ser consideradas. A remuneração, a princípio, foi instituída para possibilitar a pessoas que não possuíssem rendimentos suficientes para sua subsistência pudessem ter acesso à esfera política.

Se não fosse desta forma os únicos representantes seriam empressários, proprietários de estabelecimentos comerciais, milionários, etc. Pessoas que pudessem se ausentar de suas atividades profissionais, sobreviver sem seus rendimentos e ter sua reinserção na vida profissional mais assegurada. Um trabalhador manual não teria a garantia de manter seu emprego, a não ser que houvesse garantia em lei, apesar de que isso não asseguraria o preconceito por part do patrão frente a estes funcionários "representantes".

Mas concordo com o fato de que este "salário" constrói uma "independência" do mundo social do qual cada um se origina. Um operário que se torna um deputado possui mais vínculos "empregatícios" com a representação política do que com o chão da fábrica, e, desa forma, se afasta das perspectivas de mundo que deveria representar. O salário faz parte deste sistema de profissionalização política que exclui da política o cidadão comum. aiai... tem um monte de coisas pra falar, mas preciso ir. Depois eu continuo.

Friday, September 22, 2006 1:59:00 PM  
Blogger anulados said...

Ah, Mythus, outra coisa,

Você não precisa ser cientista político para falar disso. Na realidade, ainda bem pra você que não é este o seu caso...eheheh

Friday, September 22, 2006 2:01:00 PM  

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